Cabine Telefónica
Às vezes penso quem seria eu no tempo em que as cabines telefónicas faziam parte da vida. Em Portugal encontro ainda algumas, umas mais, outras menos “vintage”… Mas as melhores são as londrinas, como dirá o vosso álbum de fotos “London 2022”.
Quem seria eu… alguém que ligava aos pais semanalmente?
A que horas?
Talvez de tarde, porque a noite é perigosa!
(Na verdade, nunca senti na noite uma ameaça maior do que no dia, mas é uma frase que ouço com frequência, e na altura das cabines ainda mais).
Quanto dinheiro do meu salário iria custar?
Certamente teria de ser criteriosa com quem ligava e com certeza estaria atenta à duração.
Teria alguém longe de quem quisesse especialmente saber, ou teria eu essa pessoa perto de mim?
As cabines telefónicas eram usadas por quem não tinha telefone em casa, por quem tinha e estava na rua, por causa de uma emergência física ou de espírito. Quem vai à cabine telefónica é sempre quem tomou a iniciativa de conversar, é o principal responsável pelo momento que se seguirá.
No fundo, como qualquer chamada…
Mas aquela é especial pelo esforço que é necessário para se chegar a uma cabana urbana, botar o dinheiro e ligar a um número escrito num papel, ou sabido de cor.
Dizem que estas cabines isolavam o som, não sei se isso se aplica a Portugal porque já vi várias sem tecto (assim parece uma opção estética), sobretudo aquelas modernas da PT que devem ser mais marketing do que outra coisa.
Mas, confiando que aquelas paredes realmente deixavam o som lá fora e com ouvidos moucos para o que se passava lá dentro, estaríamos nós perante uma pessoa com pppppri… vacidade?
Não daquela em casa, em que se desabafa com a amiga, mas também com o vizinho do lado, nem a privacidade que arregala os olhos quando dizemos “chocolate” e depois nos tenta vender Milka durante 3 semanas… a outra.
Ou se calhar não era bem assim… nunca vou saber, nunca fiz, não foi essa a minha altura.
Mas posso tentar imaginar a ausência de distrações, não há uma televisão para olhar, ou qualquer ecrã para passar o dedo, nem um arroz a queimar, no máximo há uma rolha no chão para entreter os mais inquietos, ali dentro ouve-se e fala-se, é onde a sensação auditiva mais pode brilhar, e isso pode ser eficaz para tratar de alguns assuntos.
Desconfio, no entanto, que naquele tempo eu iria abrir a porta da cabine a contar sobretudo com silêncio até o resto acalmar.
Mas a minha altura é outra, tenho o telefone a carregar e ainda não acabou o dia.
As cabines telefónicas seriam o equivalente a smart-phones públicos?




Eu ainda sou do tempo da cabine telefónica. E das chamadas a pagar no destino. A quem ligarias com uma chamada a pagar no destino?