Avó
Para mim é avó, para a minha mãe é mãe, e para o resto das pessoas, aquelas que me perguntavam de quem eu era, era a Tia Tina.
Avó, às vezes penso que passei mais tempo em tua casa do que na minha. A casa tem muitos quartos, um campo grande, e viviam lá a tia Maria, o tio Mingos, a Marlene, o Edgar e tu, que estavas sempre por lá. Quando eu chegava, podias estar a arrumar o teu quarto, talvez a lavar uma panela no tanque ou, se estivesse bom tempo, a tratar das couves. Havia dias em que não estavas. Sabia que estarias na venda do Galinheiro às compras para o almoço, ou a falar com um vizinho na rua.
O que é certo é que quando não estavas em casa era a minha grande oportunidade para subir ao muro, sem fazeres cara de zangada e me mandares descer. Às vezes a brincadeira era interrompida quando aparecia alguém para comprar uma garrafa de gás. Eu tinha algum receio, porque não tinha experiência em vendas, não tinha acesso à gaveta dos teus negócios, nem a chave do cadeado e muito menos sabia qual era o preçário. A única coisa que sabia era que havia uma grande e outra pequena, uma azul e outra branca.
Muitas pessoas ficavam à tua espera enquanto eu andava de bicicleta em círculos. Umas eram simpáticas e metiam conversa, outras com a pressa e ficavam mal encaradas. Eu gostava daquelas mulheres mais velhas, que vinham com uma garrafa à cabeça, sem o apoio das mãos e a passo rápido. Ainda hoje não sei como conseguiam fazer tal coisa.
Havia quem, depois de esperar, acabasse por ir embora. Também não posso dizer com certeza que nunca ninguém levou uma garrafa sem eu reparar, mas o que é certo é que, na maior parte das vezes, tu chegavas a casa antes de eu fechar negócio com algum freguês. Lá vinhas tu, vendias a garrafa, anotavas tudo no seu caderno para ficar tudo assentadinho.
Nas férias de verão iam os primos das redondezas lá almoçar. Éramos muitos: o Hugo, a Cristiana, o Pedro, eu e o Bruno. Nesses dias começava-se a cheirar a estrugido bem cedo pela manhã. Com o tempo foste reparando que os teus netos não eram grandes apreciadores de sopa e começaste a fazer aquilo de que nós mais gostávamos, como panados, bifes e as melhores batatas fritas do mundo. Mas a verdade é que até dos chicharros e das sardinhas pequeninas aprendemos a gostar. Na mesa ainda punhas uma Coca-Cola que compravas só para nós. Era uma guerra pelo primeiro copo. As garrafas de coca-cola reutilizavas e punhas vinho lá dentro, com isto enganaste bem o Pedro.
Avó, passavas a manhã na cozinha e nós comíamos tudo em três segundos, como se nunca tivéssemos comido antes. Acho até que chegaste a desconfiar que as tuas filhas não nos alimentavam.
Desculpa se te deixámos a lavar aqueles pratos todos sozinha. Nós, depois de comer, só queríamos ir para lá para fora, sentir o sol, subir à nogueira e jogar à bola. A minha parte favorita de quando os primos jogavam à bola, era quando a bola ia para o telhado. Era um momento de perigo, porque um deles tinha de subir lá acima… mas o perigo maior era se a avó visse um neto de pé no telhado! O Joãozinho era o corajoso.
Sei que tiveste a sua dose de sofrimento. A perda de um filho com dias de vida, a perda de outro que começava a sua vida adulta e a perda do marido, o avô, mais cedo do que o suposto. Foram anos difíceis, porque gostavas tanto deles como de nós, e é uma dor muito pesada. Mas, em vez de baixares os braços, encontraste em nós a razão para continuar. A fé esteve contigo e, com ela, sempre nos quiseste proteger.
Avó, só te tenho a agradecer por tudo. Pelas preocupações, pelo amor, pelas histórias e pelos risos. Agora vamos estar cá e, sem ti, é verdade que tudo é diferente. Vais fazer-nos muita falta. Mas não te preocupes. Os teus netinhos mais novos vão crescer e a nossa família vai continuar juntinha. E esse mérito é teu.
Tenho muita sorte em ser tua neta e vou ter-te sempre comigo,
Simone






🥹❤️
Tão bonito. Que grande orgulho tem a Avó na sua Neta, nos seus netos, acredito. Os Avôs e Avós partem, mas ficam sempre aqui ao nosso lado, nas memórias, nos cheiros, nos sabores.