19.06
Liguei a ventoinha, deixei no modo giratório e a cada 6 segundos sou atingida pelo vento.
Estamos em Junho, esta casa está muito quente e só tem três andares. Tenho a impressão de que a temperatura aumentou desde que o café lá em baixo abriu. O café tem um forno, e o forno, parecendo que não aquece, além disso, é um café bastante concorrido, o que gera calor humano, um conceito cientificamente comprovado.
Não foi assim há tanto tempo que havia ali uma loja de flores e um escritório de contabilidade. Na verdade, não sei se era contabilidade, tinham computadores e impressoras grandes, talvez fosse outra coisa, mas agora também não posso confirmar. Durante as obras destruíram a parede que separava os dois negócios, levou um ano até tornarem aquilo um café. Um ano de obras até não parece muito tempo para os ainda mais citadinos, mas foi um ano sem qualquer interrupção, sem uma pausa para férias de verão ou folgas. Um ano de suor e lágrimas (tanto para os trabalhadores como para mim).
Um dia espreitei pela vitrine antes de entrar em casa, vi uma prateleira em inox ligeiramente inclinada. Era uma máquina de gelados, não demorei muito a perceber. Foi isso que me fez crer que o negócio estaria prestes a abrir, isso e o fim do basqueiral das 7 às 18.
A palavra “basqueiro” não é adequada para descrever o que ali se passou. Escrevi „basqueiro dicionário“ no Google e fui parar à infopedia.pt (logo depois da resposta da A.I). O logótipo da Infopédia consiste na palavra “Infopedia” em cima, e “Dicionários Porto Editora” em baixo, e diz que significa “grande barulho, barulheira, estardalhaço”. Pergunto-me o que dirão os dicionários de outras cidades. O de Ermesinde deve ter atribuído outro significado para basqueiro… e o de Penafiel? Provavelmente também. Cada um atribui o significado que quer, dentro de uma lógica qualquer que alguéns certamente importante criou.
Passou-se meio ano desde a abertura, eu chegava de uma longa caminhada, já tinha as chaves na mão, faltavam 5 para as 19. Vi uma mulher de bata a acartar as cadeiras da esplanada para dentro do café, e segui-a. Lá dentro cheirava muito a flores, ainda mais do que na escadaria do prédio. Seria de imaginar que o cheiro das flores de várias cores e formas desse origem a uma maravilhosa fragrância, que nos obriga a inspirar profundamente. Mas não. Aquelas flores não originavam senão um pivete azedo.
A mulher resmungona disse que estavam fechados. Perguntei pelos gelados. Os gelados, se forem vendidos à bola, não demoram tempo nenhum a preparar. A única coisa que ela tem de fazer é pegar naquela colher barriguda e dar quatro ou cinco raspadelas no gelado de chocolate até formar uma bolinha. Enquanto isso eu preparo o troco generosamente. Em seguida, ela transfere a bolinha para um copinho de papel, eu estendo logo as duas mãos, a senhora recebe o dinheiro e dá-me o gelado. Isto tudo e ainda são 18:57.
O cheiro a flores não era por acaso, não sei se a dona da loja das flores decidiu expandir o seu negócio ou se pôs o sítio à venda. Provavelmente nunca vou descobrir, a não ser que fale com os vizinhos, algo que me parece de evitar. O que é certo é que para além de café vendem flores, é um conceito original, tal como o nome „Das Blumencafe“.
Infelizmente não havia gelados. Estava calor em Maio, mas não o suficiente para se venderem gelados. Triste, dei meia volta e vim para casa, que ficava mesmo ali.
Pesquisei o nome do café/florista na net, pelos vistos também servem Goulash, sopa de Goulash, Lasanha (eu sabia que tinham um forno) e Gnocchi. O nome Gnocchi é bem adequado para aquilo que não é massa, nem batata, nem nada. Também servem snacks, como Paninos (ou Panini), Fungone e Tramezzini.
O público-alvo do café/florista/restaurante é aquele que vem visitar o pessoal que foi enterrado no cemitério à frente e que entra com o intuito de comprar flores para pousar nas lápides, mas que antes disso aproveita para tomar um Doppelte Espresso (talvez um Macchiato Fiorito ou, quem sabe, um Babyccino). Os bolos estão expostos nas várias vitrines do café. É difícil resistir a levar dois ou três para comer mais logo. Na plaqueta da entrada vê ainda que vendem Lasanha, para a próxima já sabe onde almoçar.
Da varanda, vê-se todo o dia pessoas a entrar e a sair. Na esplanada há velhinhas aos pares, mas também casais novos. No canto, há um bebedouro para os cães, é um vaso de plástico que imita os de argila. Daí tantos poodles e akitas.



